CRÔNICAS DE JUDITH NOGUEIRA

   CRÔNICAS



          Carne de Pescoço


        Durante um plantão em um pronto-socorro da periferia de São Paulo, recebi um paciente que fora agredido pela própria esposa, que lhe jogou água e óleo fervendo durante um momento de fúria.
Havia mais um problema: a queimadura acontecera há mais de dois dias e o paciente esperou todo esse tempo sem qualquer cuidado por vontade própria, já que não estava impedido de andar nem estava inconsciente.
Suas costas apresentavam uma extensa área de perda de pele, já começando a apresentar pus devido à falta de limpeza e curativos adequados.
Após as perguntas sobre o tipo de acidente, comecei a fazer a limpeza do ferimento e, como era grande, demorou um bom tempo. Enquanto ia limpando, fui dando broncas e sermões que o pobre paciente foi ouvindo sem responder, apenas me encarando espantado, com os olhos muito arregalados. Comecei lhe dizendo que deveria fazer boletim de ocorrência, que aquilo era uma agressão muito grave, que poderia ter morrido e isso e aquilo...
Ele respondeu que não queria denunciar a mulher e que foi só uma briga. Disse também que não tinha intenção de se separar dela, o que eu achei um absurdo! Como uma coisa dessas pode ser uma “briga de casal”? Um quase mata o outro e fica por isso mesmo? Que horror! Se fosse o contrário, o homem agredindo a mulher, já teria aparecido em todos os noticiários e todo mundo ficaria com pena dela, o homem seria preso, a delegacia da mulher seria acionada...
Expliquei ao paciente que ele também tinha direitos e que se ele fez alguma coisa errada contra a mulher, as coisas deveriam ser resolvidas de outra maneira, de preferência com uma separação civilizada.
Depois do sermão moral, comecei com o sermão médico. Dei-lhe uma bronca por ter demorado a procurar o pronto- socorro, que sua queimadura já estava infeccionada por causa disso, que estava cheia de crostas, que aquilo era muito perigoso, que precisava de troca de curativo diário, que a limpeza era fundamental etc, etc, etc...
Para piorar, ele (ou a esposa arrependida) havia colocado pó de café sobre o ferimento, que é um costume que muita gente tem, mas que além de não servir para nada, também piora a lesão, pois a deixa mais suja e propensa às infecções, além de dar mais trabalho para quem vai limpar tudo! Agora vocês imaginem uma queimadura de três dias com pó de café grudado. Que beleza!
É claro que dei mais bronca ainda por causa do café e expliquei todos os perigos que esse costume pode trazer. Enquanto limpava sem dó nem preguiça, expliquei-lhe o que fazer em casos de outros ferimentos, orientei os retornos para trocas de curativo, enfim, falei tudo o que tinha e não tinha direito.
Quando terminei de lhe colocar as ataduras do caprichado e demorado curativo, ele olhou para mim e soltou a maravilhosa frase:
— Eu nunca casaria com a senhora.
Eu também não pensei em casar com ele, mas fiquei curiosa e não resisti. Perguntei-lhe o motivo.
— A senhora é carne de pescoço.
Fiquei quieta. Achei engraçado, mas não falei nada. Eu tinha só 25 ou 26 anos, trabalhava em locais de muita violência na periferia de São Paulo, atendia gente acostumada com briga, e eu é que era a carne de pescoço? Quer dizer que eu sou mais brava do que a mulher que lhe jogou água e óleo fervente?
Até hoje penso nisso. Talvez ele tivesse mesmo razão.



Vaidade II

       Zelar Pela Coluna Vertebral

A vaidade muda de forma, mas não tem que desaparecer.

Guardei uma radiografia da minha coluna lombar, que fico olhando às vezes, maravilhada. Que felicidade não ter hérnia de disco! Que espaços grandes entre as vértebras! Isso significa que minha coluna não está achatada.

Gozo de velho é saúde! Deve ser esta a tal beleza interior, a que se vê na radiografia. Quem disse que eu fico olhando foto antiga minha? Quem disse que eu fico me olhando no espelho?

Minha obsessão é a coluna vertebral. Ela vai ter que aguentar firme por mais 52 anos, pelo menos.

A pele, cedo ou tarde, vai mostrar sinais de desgaste, por mais que alguém se cuide. Mas zelar pela coluna é um investimento e tanto para o nosso futuro.

Existe uma música que é muito significativa para mim e que resume minha concepção acerca dos cuidados corporais:

“Quando eu não puder pisar mais na avenida

Quando as minhas pernas não puderem aguentar

Levar meu corpo, junto com meu samba

O meu anel de bamba entrego a quem mereça usar”

(Edson Gomes da Conceição / Aloísio Silva)

 Vamos fazer atividade física, senão esses músculos não vão levar nosso corpo junto com nosso samba. Vejam que uma das coisas que mais deixa a aparência geral envelhecida é a postura, é aquela coluna curvada. Na velhice, o exercício físico é mais um trabalho para garantir a autonomia, do que propriamente para conservar a aparência. É manter a energia para se erguer nas pernas pelos próximos anos.

É claro que existem problemas e doenças que podem aparecer independentes dos nossos cuidados, mas podemos fazer nossa parte para evitar ou minimizar algumas limitações, principalmente as locomotoras.

Creio que seja um equívoco aceitar passivamente a ideia de que a velhice está associada à fragilidade, à limitação de movimentos, à falta de equilíbrio e, consequentemente, à dependência total de outras pessoas para realizarem nossas tarefas corriqueiras.

Muita gente considera fato consumado depois dos sessenta anos ter que ser cuidado por alguém e não ser mais capaz sequer de subir escadas. Aí começa um círculo vicioso de imobilidade, perda de massas muscular e óssea, dificuldade para locomoção e assim por diante.

Claro que depois dos cem anos não espero estar nas mesmas condições de agora, mas farei o possível para ter autonomia em minhas tarefas diárias, como higiene pessoal e alimentação. Para mim, isso é levar meu corpo junto com meu samba.

Quando não puder mais fazer isso, prefiro passar o bastão, ou o anel de bamba, e me retirar da batucada da vida.




ASSUNTO DE HOMENS

Ridendo castigat mores




Tenho uma dificuldade muito grande para ver criança sofrer. Todos nós temos o nosso ponto fraco, e esse é um dos meus. Nunca me incomodou atender quem quer que fosse, estivesse sujo, embriagado, malcheiroso, vomitado. Não tenho nojo do corpo humano e sempre me acostumei facilmente com esse aspecto menos glamouroso da nossa condição física.

Quando eu era ainda uma estudante do quinto e do sexto ano da faculdade de medicina, não me incomodava por fazer suturas na boca dos alcoolizados que caiam na rua e eram levados para o Pronto-Socorro. Alguns colegas ficavam espantados e diziam:

— Como é que você consegue aguentar esse hálito horroroso?

E eu sempre respondia:

— Meu olfato é péssimo! Quase não sinto o cheiro dessas coisas que enojam a maioria das pessoas. Duro mesmo seria trabalhar na pediatria! Aí, sim, seria sofrimento para mim.

Atender criança doente, com os pais sofrendo, ansiosos, é demais para mim, por isso nunca pensei em fazer especialização em pediatria. Sempre achei que criança nunca deveria ficar doente, que deveria ter uma idade mínima para isso, por exemplo, 18 anos.

Não que o sofrimento dos adultos seja aceitável, mas o das crianças me deixa para morrer, me desmonta. Aquelas criaturas tão pequenas, tão ignorantes da vida, tendo que lidar com situações de dor, de desconforto, de perda...

Curiosamente, mesmo evitando essa especialidade, as crianças acabam sempre por cruzar meu caminho profissional, como aconteceu há 25 anos, durante uma manhã de trabalho como médica residente de cirurgia. Nesse dia, quando cheguei para o plantão no Pronto-Socorro, meus colegas contaram sobre o menino de 12 anos que chegou à noite, com a mão e o antebraço direitos esmagados e ainda presos a uma máquina de moer carne. O garoto trabalhava em um açougue e sofreu o acidente lamentável. Como não foi possível aos bombeiros retirarem seu braço da máquina, levaram-no ainda preso ao moedor, que teve que ser retirado no centro cirúrgico, após a anestesia do menino.

A mão e parte do antebraço já estavam completamente destruídos pela trituração, de modo que não houve outro recurso senão concluir a amputação do membro já perdido.

Ainda sem ver o paciente, fiquei muito chocada com a história. Quando entrei no Centro Cirúrgico para uma outra operação, vi o garoto na sala de recuperação pós-anestésica, deitado na cama, com o coto do antebraço enfaixado e chorando muito. Estava assustado, chocado, arrasado, tudo junto. Não falei nada, pois não havia o que falar. Uma das funcionárias, no intuito de distrair o menino, fez um estúpido e grosseiro que eu me recuso a repetir aqui, embora me lembre de todas as suas palavras. Se a palavra é prata, o silêncio é ouro. Melhor não perder a chance de ficar de boca calada.

De qualquer modo, ele não era meu paciente e foi para uma enfermaria na qual eu não estava atuando naquele mês, mas a sua história não me saiu da cabeça, nem a imagem do seu choro desesperado naquela manhã terrível. Eu imaginava o que estaria pensando a respeito de seu futuro, se estava com medo, com vergonha. Dali para frente, sua vida seria diferente em vários aspectos, e que ninguém venha com conversas politicamente corretas de que a vida dele continua igual, de que pode se adaptar, que pode ser igual aos outros.

A adolescência já é suficientemente difícil para quem tem as duas mãos, os dois olhos, as duas pernas. A criança que está entrando na idade adulta ainda tem muitas inseguranças acerca da aparência, mesmo quando ela é perfeita!

Fiquei pensando como um segundo pode mudar completamente o curso futuro de nossas vidas. Para o garoto em questão, foi um segundo de distração e a vida toda sem mão.

Acompanhei o caso à distância, até que soube que o paciente tivera alta. Quis saber como ele estava quando saiu, se estava melhor, se chorou muito e assim por diante.

Meu colega de residência contou-me que ele estava com mais vergonha do que tristeza. Estava mais preocupado com os colegas de escola, temendo que rissem dele, que se tornasse alvo de caçoada. Naquele tempo ainda não usávamos a palavra Bulling, mas a coisa em si já existia, embora em menor proporção.

Fiquei muito triste por isso e perguntei qual foi a conduta do colega que deu a alta no sentido de amenizar a angústia do jovem. Para minha surpresa, meu colega apenas respondeu:

­ — Ele disse para o menino: “Não ligue, não. Se te zoarem você fala que perdeu a mão, mas não o pinto. O pinto tá aqui, ó!”

Durante alguns segundos eu fiquei horrorizada! E a ética médica? Onde já se viu falar assim com um paciente, ainda mais um menor? Perguntei qual foi a reação do garoto e meu colega informou que ele caiu na risada e foi embora sorrindo...

Fiquei perplexa. Lembrem-se que éramos todos jovens de vinte e poucos anos, eu ainda com questões rígidas acerca da ética e de como falar com o paciente. Lembrem-se também de que eu sou mulher e meus colegas são homens, assim como o paciente. Jamais passaria pela minha cabeça falar assim com alguém, mas às vezes só a seriedade e a compaixão não resolvem.

Há coisas que só as pessoas do mesmo sexo conseguem entender.

Até hoje, 25 anos depois, mesmo com toda a experiência que adquiri, creio que não saberia me sair tão bem de uma situação como aquela. Eu não saberia como falar com graça a um adolescente em tal situação. Se fosse uma mulher a falar aquilo, provavelmente ele ficaria muito constrangido.

Essa situação é um perfeito exemplo daquele ditado em latim, “Ridendo castigat mores”, que pode ser traduzido por “rindo mudamos os costumes”.

Só para terminar, ainda bem que somos tão diferentes. O que seria de nós sem os outros?





Comments